Nos últimos dias, a Ubisoft voltou aos holofotes não por um novo jogo, mas por uma polêmica envolvendo os termos de uso de seus produtos. Segundo apuração da IGN Brasil, a empresa exige que, caso o jogador deseje encerrar o contrato de licença de um jogo — ou se esse jogo for descontinuado —, ele seja obrigado a apagar todas as cópias instaladas e destruir qualquer versão disponível em mídia física ou digital. Esse tipo de cláusula está presente em diversos contratos de EULA (Acordo de Licença de Usuário Final), e, embora muitos nunca leiam esses documentos, o conteúdo tem gerado indignação.
Apesar de juridicamente questionáveis em várias jurisdições — já que EULAs não têm força de lei por si só —, essas cláusulas representam uma tentativa de manter o controle total sobre o uso do produto, mesmo após a venda. Elas evidenciam como as grandes desenvolvedoras veem os jogos mais como serviços temporários do que como bens adquiridos. O jogador, nesse contexto, nunca é realmente “dono” do que comprou.
Ubisoft não está sozinha

O caso da Ubisoft acendeu um alerta, mas está longe de ser isolado. Diversas empresas incluem em seus contratos cláusulas semelhantes, que obrigam o usuário a deletar e destruir suas cópias do jogo caso a licença seja encerrada. Títulos como Death Stranding, TES IV: Oblivion, Call of Duty, Elden Ring e No Man’s Sky seguem a mesma lógica. E mais: estúdios e publishers como Square Enix (com Final Fantasy XIV), SEGA (incluindo Persona, Yakuza e Metaphor: ReFantazio), Activision e até jogos mobile como Genshin Impact também adotam essa cláusula em seus EULAs.
Algumas empresas vão além do simples aviso legal em seus termos de uso. A SEGA, por exemplo, aplica a mesma cláusula em todos os seus jogos — como Yakuza, Persona e Metaphor: ReFantazio — exigindo que o jogador destrua todas as cópias, físicas ou digitais, caso a licença seja encerrada. Isso reflete uma postura rígida, tratando os jogos como licenças temporárias, mesmo quando foram comprados de forma definitiva.
Já a Larian Studios, de Baldur’s Gate 3, adota um modelo diferente: a cláusula só se aplica se o próprio jogador encerrar o contrato, o que exige uma notificação formal à empresa. Enquanto isso não acontecer, o acordo continua válido e a exigência de destruição não tem efeito. A diferença entre as abordagens mostra como algumas desenvolvedoras ainda deixam margem de controle ao usuário, enquanto outras impõem regras mais automáticas — mesmo que a validade legal dessas cláusulas siga sendo discutível.
O que isso significa para os jogadores?
Embora essas cláusulas raramente tenham validade legal ampla, elas revelam uma tendência preocupante: a perda de controle do consumidor sobre algo que comprou. Na prática, uma empresa pode descontinuar um jogo, remover servidores e ainda exigir que o jogador apague todas as suas cópias, inclusive físicas. Isso confronta a ideia tradicional de propriedade, especialmente quando há investimento financeiro envolvido.
Esse cenário reforça uma mudança no modelo de consumo de jogos: eles deixam de ser produtos para se tornarem serviços com prazo indefinido, sujeitos a regras unilaterais. O EULA de Cyberpunk 2077, da CD Projekt Red, exemplifica bem isso com um texto confuso e, em alguns trechos, até cômico — mostrando que muitos desses contratos funcionam mais como ferramentas para concentrar poder nas mãos das desenvolvedoras do que como acordos justos com o usuário.
#StopKillingGames
A imposição de cláusulas que exigem a destruição de jogos descontinuados se conecta diretamente ao movimento #StopKillingGames (Pare de Matar Jogos). Criada por jogadores e apoiada por desenvolvedores independentes, a campanha defende o direito de continuar acessando títulos mesmo após o fim do suporte oficial e conta com mais 1,2 milhão de assinatura pelo mundo. A proposta é clara: se os servidores forem desligados, que o jogo ao menos funcione offline ou possa ser mantido por servidores da comunidade.
O movimento surgiu como reação ao encerramento de jogos ainda populares, cujos servidores foram desligados mesmo com uma base ativa de jogadores. Diante de termos de uso que tratam o consumidor apenas como um usuário temporário, o #StopKillingGames levanta uma pergunta crucial: se você pagou por um jogo, por que não pode continuar jogando quando a empresa decide abandoná-lo?
Mais do que uma reclamação pontual, a mobilização fortalece o debate sobre a preservação dos jogos, a real propriedade do que compramos digitalmente e os limites do controle que as empresas devem ter sobre produtos já vendidos.