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Barbosa: O ídolo, a “condenação” e o racismo no futebol 70 anos depois

Lucas Morais, Jean Felipe em 24/abr/24, atualizado 30/abr/24 às 20h – Compartilhe
16º presidente do Brasil na Abertura da Copa do Mundo de Futebol de 1950. Acervo público.
16º presidente do Brasil na Abertura da Copa do Mundo de Futebol de 1950. Acervo público.

No universo do futebol, alguns jogadores marcam suas trajetórias não apenas pelos títulos conquistados, mas também pelas adversidades enfrentadas. Moacyr Barbosa do Nascimento, o Barbosa, é um desses personagens que, infelizmente, teve sua carreira marcada por uma injustiça que ressoa até os dias de hoje.

Habilidoso e aclamado no Vasco da Gama, a trajetória desse goleiro é ainda permeada pela desventura na Copa do Mundo de 1950, evento que influenciou a maneira como o Brasil passou a reconhecer e valorizar os arqueiros nos anos subsequentes.

Barbosa era negro, era um alvo fácil para uma mídia elitista e massivamente branca. Foi dito que, por ser negro, Barbosa não tinha capacidades psicológicas para ser goleiro e, por isso, teria falhado no segundo gol do Uruguai. Afirmações racistas como essa se tornaram comuns e passaram a fazer parte do imaginário popular do futebol. Para se ter uma ideia disso, somente 16 anos depois de 1950 tivemos outro goleiro negro vestindo a camisa da seleção (Manga, na copa de 66). Depois foram mais 40 anos para que Dida fosse o camisa 1 em 2006.

O início de Barbosa no Vasco da Gama e o caminho até a Copa de 1950

Nascido em 27 de março de 1921, Barbosa iniciou sua jornada no futebol nas categorias de base do Club de Regatas Vasco da Gama. Logo se destacou por suas habilidades notáveis como goleiro, conquistando a posição de titular e se tornando peça fundamental na conquista do Campeonato Carioca de 1945.

No seio do clube cruzmaltino, Barbosa levantou a taça em seis edições do Campeonato Carioca, um Torneio Rio-São Paulo, o Sul-Americano de Clubes e o Torneio Rivadávia Corrêa Meyer, este último reconhecido como “herdeiro” da Copa Rio, embora não tenha desempenhado o papel de titular nesta competição. As atuações seguras de Barbosa o conduziram até a seleção brasileira. Ele foi o escolhido pelo técnico Flávio Costa para ser o arqueiro do Brasil na Copa de 50.

Barbosa na Copa

Todas essas credenciais vencedoras do arqueiro vascaíno o levaram a vestir a camisa da seleção brasileira. Com a camisa 1 do Brasil, Barbosa foi titular durante a bem-sucedida campanha no Sul-Americano de seleções, o que colocou o Brasil como favorito para a Copa de 1950, competição realizada precisamente em território brasileiro.

Barbosa: O ídolo, a “condenação” e o racismo no futebol 70 anos depois
Gol de Friaca na Copa do Mundo de 1950. Acervo do Picryl.

A campanha do Brasil na primeira fase foi quase perfeita. Sob o comando do treinador Flávio Costa, o time triunfou sobre o México (4 a 0), empatou com a Suíça (2 a 2) e superou a Iugoslávia (2 a 0), que era a principal equipe europeia no Mundial. Na segunda fase, a seleção brasileira aplicou goleadas sobre a Suécia (7 a 1) e a Espanha (6 a 1).

Apesar da campanha praticamente perfeita, a final da copa contra o Uruguai reservava grandes surpresas. A final entrou para a história como o “Maracanazo”, um dos episódios mais infames da história do futebol brasileiro. O Brasil, que vencia por 1 a 0, permitiu uma virada surpreendente nos minutos finais, culminando na derrota por 2 a 1. Barbosa, injustamente, foi apontado como o vilão da partida. O gol sofrido naquela final tornou-se um fardo que o goleiro carregou pelo resto da vida.

A sociedade brasileira, ainda digerindo a amarga derrota, encontrou em Barbosa um bode expiatório conveniente, para a humilhação de uma derrota de um mundial em seu próprio país. Não foi o mesmo que em 2014, onde os “culpados” foram homogeneamente estabelecidos entre diversas pessoas. Barbosa foi culpado recorrentemente em vida e demonstrou isso a jornalistas, virando até assunto em jornal internacional.

Barbosa: O ídolo, a “condenação” e o racismo no futebol 70 anos depois
Arte oficial da Copa de mundo de 2050.

O racismo e a condenação de Barbosa

“Qual é a pena máxima no Brasil? Não são 30 anos? Pois eu já estou a mais de 40 anos cumprindo e ninguém esquece. Se eu fosse um criminoso vulgar, eu entenderia. Mas qual foi o meu crime? Qual foi o meu pecado?” Disse Barbosa ao jornalista Helvídio Mattos, em entrevista concedida no ano de 1993.

O futebol, sendo um reflexo da sociedade, evidenciou o preconceito racial que persistia no Brasil naquela época. Barbosa, por ser negro, tornou-se um alvo fácil para as frustrações e decepções da nação. A derrota não foi apenas um revés esportivo, mas um gatilho para a expressão de preconceitos enraizados.

Essa visão de que o negro não tinha psicológico para ser goleiro, amplamente divulgado por “especialistas” na imprensa da época, ressoou por décadas e atingiu muitos goleiros negros talentosos, que simplesmente por serem negros eram negligenciados nas convocações.

O caso de Barbosa relatado em jornal internacional.

Babosa morreu em 2000 ainda carregando as marcas de uma condenação injusta e implacável. Sua história é um apelo à conscientização e à mudança, destacando a necessidade contínua de combater o preconceito racial e construir uma sociedade mais igualitária e justa.

70 anos depois, o racismo segue presente no futebol mundial. O que fazer?

Da mesma forma que Barbosa não podia falhar, assim como tantos outros jogadores negros que vieram antes ou depois dele, até hoje, o homem negro continua parecer sem a permissão para cometer erros, tanto dentro quanto fora do contexto do futebol. O jogador negro, infelizmente em certos momentos, parece ter menos margem para falhas. Vinicius Jr. é uma prova disso. O jogador é constantemente criticado por adotar uma postura combativa contra quem profere xingamentos racistas contra ele e, mais do que isso, cobra posicionamento das autoridades do futebol espanhol e punição exemplar para quem pratica esse tipo de ato.

Barbosa: O ídolo, a “condenação” e o racismo no futebol 70 anos depois
Vinicius Júnior em partida contra a Juventus. Acervo do Wikimedia Commons.

Mas os protestos de Vinicius morrem na praia, assim como os do goleiro Aranha, do atacante Grafite, do zagueiro Gil e de tantos outros jogadores que passaram pela mesma situação. As duas maiores entidades esportivas de clubes do mundo, Conmebol e UEFA, tomam decisões protocolares, pouco assertivas e a sensação da impunidade fortalece os agressores.

Alguns torcedores, jornalistas e pessoas envolvidas no futebol insistem que o importante é jogar, que ficar reclamando disso é ser “chorão”, mas o que elas parecem se esforçar também para passar de baixo do tapete, é que o racismo não pertence apenas ao jogo, é algo maior. Ele não deve ser tratado como uma ofensa comum, portanto, é necessário que haja um posicionamento duro para coibir esse tipo de ato, independentemente se veio da torcida, jogador ou algum membro da comissão técnica.

Muitos consideram uma medida comumente comentada na internet que é a de punir times inteiros ou torcidas de alguma forma como uma “saída” inicial. Muitos apontam essa solução como injusta, o que racionalmente faz sentido, pois os clubes, em tese, não têm como assumir a responsabilidade por indivíduos, que poderiam começar a agir de má fé para minar um grupo inteiro de pessoas em situações específicas. Entretanto, em casos como esse é importante uma abordagem mais enérgica, principalmente por parte das entidades esportivas contra atitudes racistas, para que esse tipo de conduta seja totalmente erradicado. Não há como ser minimamente complacente com casos de racismo.

Moacyr Barbosa homenageado em vídeo.

As pessoas não vão se conscientizar do dia para a noite, não vão deixar de proferir frases ou cantar músicas racistas porque entenderam a gravidade do problema. Mas a “ameaça” de uma punição mais contundente se torna um fator importante para torcedores e jogadores. Com o tempo, o ambiente pode se tornar desfavorável para quem quer praticar esses absurdos.

O racismo é algo que deixa severos rastros de destruição por onde passa e cria problemas que se calcificam nas entranhas da sociedade. O futebol não está imune a isso e precisa agir. A questão é séria e exige urgência.

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